quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Yo!

A BBDO Atlanta, criou essa propaganda para promover a peça teatral Cuttin' Up, sobre barbearias afro-americanas.
FONTE: As melhores propagandas do mundo

AKATU


Para alertar a população sobre o aquecimento global, a Leo Burnett ,do Brasil, criou para o Instituto Akatu essa propaganda: filtros de ar em forma de dos principais pontos turísticos do mundo foram espalhados por diversos aquários pela cidade.
Fonte: Melhores propagandas do mundo

Alcóolicos Anônimos.

Ugly bettty


Propaganda da Saatchi & Saatchi da Nova Zelândia
para a série de tv Betty, a feia.
FONTE: As melhores propagandas do mundo

Olhe onde os bancos estão gastando o dinheiro

Bancos salvos pelos governos promovem jantares de luxo


Vários bancos e seguradoras que beneficiaram de ajudas financeiras dos governos para fazer face à crise decidiram promover jantares e outros eventos de luxo, nalguns casos para comemorar o evitar das falências. O caso mais recente é o do banco franco-belga Dexia, que pagou um jantar de luxo a mais de 200 convidados num hotel de Mónaco. O grupo financeiro Fortis e a seguradora AIG também promoveram eventos semelhantes.
12-Out-2008

O banco franco-belga Dexia, um dos que na Europa mais sofreu com a crise nos mercados financeiras, pagou um jantar de luxo a mais de 200 convidados num hotel de Mónaco, noticia a agência de notícias belga, citada pela Lusa. O jantar, cujo custo foi mantido em segredo, teve lugar na Sala Império, a principal do Hotel de Paris, e teve como mote o lançamento da filial do Dexia para a banca privada no principado do Mónaco.O caso está a agitar a sociedade belga, que vê com maus olhos o "esbanjamento" promovido pelo Dexia, depois de ter beneficiado de uma injecção de 6.400 milhões de euros dos governos da Bélgica, França e Luxemburgo.
Também a divisão seguradora do grupo Fortis, desmembrado devido à crise e alvo de ajudas financeiras de vários governos, ofereceu sexta-feira a correctores de seguros um repasto noutro luxuoso hotel monegasco, gastando perto de 150 mil euros. Esta situação levou o Partido Socialista Belga a afirmar que "o mundo da finança perdeu toda e qualquer decência". O grupo Fortis justificou-se dizendo que tudo não passou de uma "acção comercial habitual".
Estes casos seguem-se ao da AIG, a seguradora dos Estados Unidos que, para comemorar o evitar da falência, gastou centenas de milhares de dólares num luxuoso "resort" californiano. A AIG foi salva "in extremis" da falência através de uma injecção de 85.000 milhões de dólares (62.000 milhões de euros) aprovada pela administração do Presidente George W.Bush.
FONTE: ESQUERDA.NET

Tudo o que você quer saber sobre a crise mas tem medo de não entender

Tudo o que você quer saber sobre a crise,
mas tem medo de não entender

O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? O pior já passou? O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Qual a relação entre a política de reestruturação neoliberal, adoptada para superar a crise de superprodução, e o colapso de Wall Street? Como se formam, crescem e explodem as bolhas e como se formou a actual bolha imobiliária? Walden Bello, professor de ciências políticas e sociais, oferece algumas respostas a tais questões. (Texto de Walden Bello, publicado em Focus on the Global South, traduzido para espanhol por Sin Permiso e para português por Carta Maior.)
13-Out-2008
Muita gente em Wall Street ainda continuar a tentar digerir os acontecimentos das últimas semanas.
Entre 1 e 3 mil milhões de dólares de activos financeiros evaporados.
Wall Street, nacionalizado, com o Banco Central e o Departamento do Tesouro tomando todas as decisões estratégicas importantes no sector financeiro e tudo isso com um governo que, por trás do resgate da AIG, passa a dirigir a maior companhia seguradora do mundo.
O maior resgate desde a grande depressão, com 700 milhões de dólares levantados desesperadamente para salvar o sistema financeiro.
As explicações habituais já não bastam. Os acontecimentos extraordinários precisam de explicações extraordinárias. Mas, antes...
O pior já passou?
Não. Se algo ficou claro com os movimentos contraditórios dessas últimas semanas, em que, no momento em que se permitia a quebra do Lehman Brothers se nacionalizava a AIG e se programava a tomada de controle da Merril Lynch pelo Bank of America, é que não há uma estratégia para enfrentar a crise. Há, em resumo, respostas tácticas, como bombeiros que pisam na mangueira, atrapalhados com a magnitude do incêndio.
O resgate de 700 milhões de dólares das obrigações hipotecárias apoiadas pelo poder dos bancos não é uma estratégia, senão basicamente um esforço desesperado para restaurar a confiança no sistema, para prevenir a erosão da fé nos bancos e noutras instituições financeiras e para evitar a afluência massiva de retirada de fundos dos bancos, como a que desencadeou a Grande Depressão de 1929.
O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? Foi a ganância?
A velha e venerada ganância teve a sua parte. A isso se referia Klaus Shwab, o organizador do Fórum Económico Mundial, a convenção da elite global celebrada anualmente nos Alpes suíços, quando disse à sua clientela, em Davos este ano: "Temos de pagar todos os pecados do passado".
Wall Street foi um caso de "alguazil endemoninhado" ([1])?
Certamente. Os especuladores financeiros fizeram marosca até se confundirem eles próprios com a criação de contratos financeiros cada vez mais complexos, como os derivados, tratando de ganhar dinheiro a partir de todos os tipos de riscos (incluindo exóticos instrumentos de riscos futuros, como os credits default swaps ou contratos de protecção de derivados creditícios, que permitiam aos investidores apostar, por exemplo, que os clientes da própria corporação bancária não seriam capazes de pagar as suas dívidas! Tal é o comércio multibilionário não regulado que acabou por abater a AIG.
Em 17 de Dezembro de 2005, quando a International Financing Review (IFR) anunciou os seus prémios anuais - um dos programas de prémios mais prestigiados do sector -, disse: "Lehman Brothers não só manteve a sua presença global no mercado, como dirigiu a entrada no espaço de preferência...desenvolvendo novos produtos e desenhando transacções capazes de subvencionar as necessidades dos clientes...Lehman Brothers é o mais inovador no espaço de preferência precisamente por fazer coisas que não se podem ver em nenhum outro lugar".
Sem comentários.
Foi falta de regulação?
Sim. Todo mundo reconhece agora que a capacidade de Wall Street para inovar e imaginar instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados tem ido muito além da capacidade de regulação do Estado, e não porque o Estado não seja capaz de regular, mas porque a atitude neoliberal, de laissez-faire imperante impediu o Estado de desenhar mecanismos efectivos de regulação.
Então não há nada mais? Não há nada sistémico?
Bem, Georges Soros, que viu a crise se aproximar, disse que o que estamos a passar é a crise do sistema financeiro, a crise do "gigantesco sistema circulatório" de um sistema "capitalista global...que está a passar dos limites".
Para continuar com a tese do arqui-especulador, o que estamos a assistir é a uma intensificação de uma crise ou de uma contradição central do capitalismo global: a crise de superprodução, também conhecida como super-acumulação e super-capacidade.
Trata-se da tendência do capitalismo de produzir uma enorme capacidade produtiva que termina por rebaixar a capacidade de consumo da população, devido às desigualdades que limitam o poder de compra popular, o qual termina por corroer as taxas de lucro.
Mas o que a crise de superprodução tem a ver com os acontecimentos recentes?
Muitíssimo. Só que, para entender a conexão, teremos de retroceder à chamada Época Dourada do capitalismo contemporâneo, ao período compreendido entre 1945 e 1975.
Foi um período de rápido crescimento, tanto nas economias do centro como nas subdesenvolvidas; um crescimento propiciado, em parte, pela massiva reconstrução da Europa e do Leste Asiático depois da devastação da II Guerra Mundial e, em parte, pela nova configuração socio-económica institucionalizada sob o novo estado keynesiano. Um aspecto chave desta última foram os severos controlos estatais da actividade de mercado, o uso agressivo de políticas fiscais e monetárias para minimizar a inflação e a recessão, assim como um regime de salários relativamente altos para estimular e manter a procura.
O que aconteceu, então?
Bem, este período de elevado crescimento terminou em meados dos 70, quando as economias do centro se viram imersas na estagflação, quer dizer, na coexistência de um baixo crescimento com uma inflação alta, o que a teoria económica neoclássica supunha impossível.
Contudo, a estagflação era um sintoma de uma causa mais profunda, a saber, a reconstrução da Alemanha e do Japão, assim como o rápido crescimento de economias em vias de industrialização, como Brasil, Taiwan e Coreia do Sul, somando-se a isso uma enorme capacidade produtiva que incrementou a competição global, enquanto a desigualdade social, dentro de cada país e entre países limitou globalmente o crescimento do poder aquisitivo e da procura, resultando assim corroída a taxa de lucro. A drástica elevação do preço do petróleo nos anos setenta não fez senão agravar a coisa.
Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução?
O capital tentou três vias de saída do atoleiro da superprodução: a reestruturação neoliberal, a globalização e a financeirização.
Em que consistiu a reestruturação neoliberal?A reestruturação neoliberal tomou a forma do reaganismo e do thatcherismo no Norte e do ajuste estrutural no Sul. O objectivo era revigorar a acumulação de capital, o que foi feito: 1) removendo as restrições estatais ao crescimento, ao uso e aos fluxos de capital e de riqueza; 2) redistribuindo o rendimento das classes pobres e médias dentre os ricos, de acordo com a teoria de que assim os ricos seriam motivados a investir e a alimentar o crescimento económico.
O problema dessa fórmula era que, ao redistribuir o rendimento a favor dos ricos, estrangulava-se o rendimento dos pobres e das classes médias, o que provocava a restrição da procura, sem necessariamente induzir os ricos a investir mais em produção.
De facto, a reestruturação neoliberal, que se generalizou no Norte e no Sul ao longo dos anos oitenta e noventa, teve resultados pobres em termos de crescimento: o crescimento global alcançado foi de 1,1% nos 90 e de 1,4 nos 80, enquanto a média nos 60 e nos 70, quando as políticas intervencionistas eram dominantes, foi, respectivamente, de 3,5% e de 2,54%. A reestruturação neoliberal não pôde terminar com a "estagflação".
Em que medida a globalização foi uma resposta à crise?A segunda via de escape global tentada pelo capital para enfrentar a estagflação foi a "acumulação extensiva" ou globalização, quer dizer, a rápida integração das zonas semi-capitalistas, não-capitalistas e pré-capitalistas na economia global de mercado. Rosa Luxemburgo, a celebrada economista e revolucionária alemã, percebeu este mecanismo há muito tempo, vendo-o nas economias metropolitanas. Como? Como o acesso de novas fontes de produtos agrícolas e de matéria-prima baratos; e criando novas áreas para investimento em infra-estrutura. A integração produz-se através da liberalização do comércio, removendo obstáculos à mobilidade do capital e abolindo as fronteiras para o investimento no exterior.
Nem é preciso lembrar que a China é o caso mais destacado de uma área não-capitalista integrada na economia capitalista global nos últimos 25 anos.
Para compensar os seus lucros declinantes, um considerável número de corporações empresariais situadas entre as primeiras 500 do ranking da revista Fortune deslocaram uma parte significativa das suas operações para a China, a fim de aproveitar as vantagens do chamado "preço chinês" (as vantagens de custos derivadas de um trabalho barato e aparentemente inesgotável). Em meados da primeira década do século XXI, entre 40 e 50% dos lucros das corporações norte-americanas procediam das suas operações e vendas no exterior, marcadamente na China.
Por que a globalização não pôde superar a crise?
O problema com esta via de saída do estancamento é que se exacerba o problema da superprodução, porque aumenta a capacidade produtiva. A China dos últimos 25 anos acrescentou um tremendo volume de capacidade manufactureira, o que teve como efeito deprimir os preços e os lucros. Não por acaso, os lucros das corporações norte-americanas deixaram de crescer por volta de 1997. De acordo com um índice estatístico, as taxas de lucros das 500 maiores da Fortune passaram de 7,15 em 1960-69 a 5,3 em 1980-1990, a 2,29 em 1990-99 e a 1,32 em 2000-02.
Dados os limitados ganhos obtidos para conter o impacto depressivo da superprodução, seja através da reestruturação neoliberal, seja com a globalização, a terceira via de saída tornou-se vital para manter e para elevar a rentabilidade. A terceira via é a financeirização.
No mundo ideal da teoria económica neoclássica, o sistema financeiro é o mecanismo à mercê do qual os poupadores, ou quem se encontra na posse de fundos excedentes, juntam-se com os empresários que têm necessidade de seus fundos, para investir em produção. No mundo real, do capitalismo tardio, com o investimento na indústria e na agricultura gerando lucros magros, por causa da superprodução, grandes quantidades de fundos excedentes circulam e são investidas e reinvestidas no sector financeiro. Quer dizer, o sistema financeiro gira sobre si mesmo.
O resultado é que se aumenta o hiato aberto entre uma economia financeira hiperactiva e uma economia real estancada. Como bem observa um executivo financeiro: "tem havido uma crescente desconexão entre a economia real e a economia financeira nos últimos anos. A economia real cresceu, mas nada comparável à financeira...até que explodiu".
O que este observador nos diz é que a desconexão entre a economia real e a financeira não é acidental: que a economia financeira se distanciou precisamente para fazer frente ao estancamento gerador da superprodução da economia real.
Quais foram os problemas da financeirização como via de saída?O problema de investir em operações do sector financeiro é que equivale a exprimir valor de valor já criado. Pode criar lucro, de acordo, mas não cria valor - só a indústria, a agricultura, o comércio e os serviços criam valor novo. Visto que os lucros não se baseiam na criação de valor novo ou agregado, as operações de investimento resultam extremamente voláteis e os preços das acções, das obrigações e de outras formas de investimento podem chegar a divergir radicalmente de seu valor real: por exemplo, as acções de empresas incipientes da Internet, que se mantiveram por um tempo em alta, sustentadas principalmente por valorações financeiras em espiral, para logo a seguir se arruinarem.
Os lucros dependem, então, do aproveitamento das vantagens por movimento de preços que divergem da alta do valor das mercadorias, para vender oportunamente antes de que a realidade force a "correcção" para baixo, a fim de se ajustar aos valores reais. A alta radical dos preços de um activo, muito além dos valores reais, é o que se chama de formação de uma bolha.
Por que a financeirização é tão volátil?Com a rentabilidade dependendo de golpes especulativos, não resulta surpreendente que o sector financeiro vá de bolha em bolha, ou de uma mania especulativa a outra.
Visto que está sustentando por uma mania especulativa, o capitalismo induzido financeiramente não deixou de bater recordes em matéria de crises financeiras desde que os mercados de capitais foram desregulados e liberalizados nos 80.
Antes do actual desastre de Wall Street, as mais explosivas foram a crise financeira mexicana de 1994-95, a crise financeira asiática de 1997-98, a crise financeira russa de 1996, o colapso do mercado de valores de Wall Street de 2001 e o colapso financeiro argentino de 2002.
O antigo secretário do Tesouro, de Bill Clinton, um homem de Wall Street, Robert Rubin, previu há cinco anos que "as crises financeiras futuras serão com quase toda certeza inevitáveis e poderão chegar a ser até piores".
Como se formam, crescem e estouram as bolhas?
Tomemos como exemplo a crise financeira asiática de 1997-98:
Primeiro: balança de pagamentos e liberalização financeira impostas pelo FMI e pelo Departamento norte-americano do Tesouro.
Depois, entrada de fundos estrangeiros em busca de rápida e elevada rentabilidade, o que significa que entraram no mercado imobiliário e no mercado de valores.
Super-investimento, o que levou à queda dos preços no mercado de valores e no mercado imobiliário e que, por sua vez, conduziu ao pânico e à consequente retirada de fundos em 1997; em poucas semanas, milhões de dólares abandonaram as economias do leste asiático.
Resgate dos especuladores estrangeiros por parte do FMI.
Colapso da economia real: a recessão se estende por todo o leste asiático em 1998.
Apesar da desestabilização em grande escala, todas as acções voltadas para impor regulações nacionais ou globais do sistema financeiro foram rechaçadas com razões puramente ideológicas.
Voltemos à presente bolha. Como se formou?
O actual colapso de Wall Street está enraizado na bolha tecnológica de fins dos 90, quando o preço das acções das empresas incipientes no mundo da Internet disparou, para logo desmoronar, resultando na perda de activos no valor de 7 mil milhões de dólares e na recessão de 2001-02.
As frouxas políticas monetárias do Banco Central norte-americano, na gestão de Alan Greenspan, estimularam a bolha tecnológica e, quando esta entrou em colapso, dando origem à recessão, Greesnpan, tratando de prevenir uma recessão duradoura, rebaixou em Junho de 2003 as taxas de juros a um nível sem precedentes em 45 anos (a 1%), mantendo-as nesse nível durante mais de um ano. Com isso, o que conseguiu foi estimular a formação de outra bolha: a bolha imobiliária.
Pouco tempo antes, como em 2002, economistas como Dean Baker, do Center for Economic Policy Research, alertaram sobre a formação de uma bolha imobiliária. Porém, numa data tardia como 2005 o então presidente do Conselho Económico de assessores da Presidência da nação e actual presidente do Banco Central norte-americano, Bern Bernanke, atribuía o aumento dos preços dos imóveis a "uns fundamentos económicos robustos", e não à actividade especulativa. A quem pode surpreender que o estouro da crise subprime no verão de 2007 pegasse este homenzinho de moral tão baixa?
E como cresceu?
Escutemo-lo da boca de um dos próprios juízes chave nos mercados, George Soros: "As instituições hipotecárias animaram os hipotecados a refinanciar as sus hipotecas, aproveitando a revalorização experimentada, na ocasião, das suas casas. Rebaixaram os seus critérios de empréstimo e introduziram novos produtos, como hipotecas a juros variáveis, hipotecas que ‘só geravam juros' e ‘ofertas promocionais' com tipos de juros de morrer de rir. Tudo isso animou a especulação com a casa. Os preços das casas começaram a subir a um ritmo de dois dígitos. Isso serviu para retro-alimentar a especulação, e a alta dos preços imobiliários conseguiu que os proprietários de casas se sentissem ricos; o resultado foi o boom consumista que sustentou a economia nos últimos anos".
Vendo as coisas mais de perto, vê-se que a crise hipotecária não resultou de uma oferta superior à procura real. A "procura" estava, quando muito, fabricada pela mania especulativa de promotores e financistas empenhados em conseguir grandes lucros a partir de seu acesso ao dinheiro estrangeiro que inundou os EUA na última década. Enormes volumes hipotecários foram agressivamente oferecidos e vendidos a milhões de pessoas que, normalmente, não teriam podido permitir-se tal coisa, oferecendo-lhes taxas de juros ridiculamente baixas, posteriormente ajustáveis, para tirar mais dinheiro dos proprietários de casas.
Mas como puderam as hipotecas subprime degenerarem num problema de tais dimensões?Porque os activos passaram, então, a ser "assegurados": aqueles que tinham gerado as hipotecas trataram de amalgamá-las com outros activos, em complexos produtos derivados chamados "obrigações de dívida colaterizada" (CDO, nas suas iniciais em inglês), o que resultou relativamente fácil, dado que trabalhavam com diversos tipos de intermediários que, sabedores do risco, desfaziam-se desses títulos de valores o mais rapidamente possível, passando-os a outros bancos e a outros investidores institucionais. Essas instituições, por sua vez, se desfaziam do produto, passando-o a outros bancos e a instituições financeiras estrangeiras.
Quando aumentaram os juros dos empréstimos subprime, das hipotecas variáveis e dos outros empréstimos imobiliários, o jogo chegou ao seu fim. Há cerca de 6 milhões de hipotecas subprime, das quais 40% entrarão em insolvência nos próximos dois anos, segundo estimativas de Soros.
A esses 6 milhões há que se acrescentar outros 5 milhões de insolventes nos próximos 7 anos, derivados dos tipos hipotecários variáveis e de outros "empréstimos flexíveis". Mas os títulos, cujos valores se conta em milhares de milhões de dólares, já se infiltraram como um vírus no sistema financeiro global. O gigantesco sistema circulatório do capitalismo foi fatalmente infectado.
E como puderam os titãs de Wall Street desmoronarem como um castelo de cartas?
O que ocorreu com Lehman Brothers, Merril Lynch, Fannie Mae, Freddie Mc e Bear Stearns foi, simplesmente, que as perdas representadas por esses títulos tóxicos rebaixaram em muito as suas reservas, o que conduziu a sua queda. E cairão mais, provavelmente, quando nos seus livros de contabilidade, os títulos que agora figuram como haveres, forem corrigidos para reflectir o actual valor desses activos.
E muitos outros lhes seguirão, à medida que vão sendo expostas outras operações especulativas, como as centradas nos cartões de crédito e nas diferentes variedades de seguro contra riscos. A AIG caiu por causa da sua gigantesca exposição na área não-regulada dos contratos de protecção creditícia derivada (credit default swaps), um dos derivados financeiros que permitiam aos investidores apostar dinheiro na possibilidade de que as empresas não pudessem pagar os empréstimos.
Essas apostas sobre insolvências creditícias representam agora um mercado de 45 mil milhões de dólares, um mercado, como se disse, que carece de qualquer regulação. A ciclópica dimensão dos activos, que poderiam ser deteriorados no caso de a AIG entrar em colapso foi o que motivou Washington a mudar de ideias e a intervir para resgatá-lo, logo após ter deixado o Lehman Brothers cair.
O que vai acontecer agora?
Pode dizer-se sem vilania que haverá mais bancarrotas e mais nacionalizações e intervenções públicas recuperando as instituições e que os bancos estrangeiros terão um papel auxiliar ao do governo dos EUA. E que o colapso de Wall Street vai mais longe e prolongará a recessão norte-americana. E que a recessão nos EUA se comunicará à Ásia e ao resto do mundo, que também sofrerá uma recessão, senão algo pior. A razão disto é que o principal mercado exterior da China são os EUA e que a China, por sua vez, importa matérias primas e bens intermediários - que servem para as suas exportações para os EUA - do Japão, da Coreia e do Sudeste asiático. A globalização tem tornado impossível o "desacoplamento". Os EUA, a China e o Leste Asiático andam agora como três prisioneiros atados por uma mesma corrente.
Em resumo?
O desabamento de Wall Street não se deve apenas à ganância e à falta de regulação estatal do sector hiperactivo. O colapso de Wall Street tem as suas raízes na crise de superprodução que foi a praga do capitalismo global desde meados dos anos 70.
A financeirização do investimento tem sido uma das vias de escape para sair do estancamento, sendo as outras a da reestruturação neoliberal e da globalização. Tendo resultado de pouco alívio a reestruturação neoliberal e a globalização, a financeirização pareceu atractiva como mecanismo de restauração da rentabilidade. Mas o que agora ficou demonstrado é que a financeirização é uma trilha perigosa que leva à formação de bolhas especulativas, capazes de oferecer uma efémera prosperidade a uns quantos, mas que terminam no colapso empresarial e na recessão da economia real.
As questões chave são estas: Quão profunda e duradoura será esta recessão? A economia dos EUA necessitará criar outra bolha especulativa para sair desta recessão? E se isso for o caso, onde se formará a próxima bolha? Alguns dizem que a próxima surgirá no complexo militar-industrial ou no "capitalismo de desastre" sobre o qual escreve Naomi Klein. Mas isso não é farinha do mesmo saco.
Walden Bello, professor de ciências políticas e sociais na Universidade das Filipinas (Manila), é membro do Transnational Institute de Amsterdam e presidente de Freedom from Debt Coalition, e é analista senior no Focus on the Global South. Artigo publicado em 05 de outubro no SinPermiso.
Tradução: Katarina Peixoto
FONTE: ESQUERDA.NET

Desequilíbrios estruturais do capitalismo actual

Desequilíbrios estruturais do capitalismo actual

A actual crise económico-financeira internacional insere-se no marco de um ciclo longo recessivo, do qual o capitalismo não conseguiu sair desde o seu início, em meados da década de 70 do século passado. Sem essa inserção, fica difícil a apreensão do carácter dessa crise, das consequências que pode produzir e do cenário que deve surgir depois dela. (Por Emir Sader, publicado originalmente no Brasil de Fato.)
06-Out-2008

Os ciclos e as crises
O capitalismo vive, pela própria natureza do seu processo de reprodução, articulado por ciclos, curtos e longos. Estes coordenam os ciclos curtos, numa perspectiva expansiva, se a curva das subidas e descidas das oscilações curtas apontam para cima, recessiva, se para baixo, conforme a teoria do economista russo Kondratieff, retomada teórica e historicamente por Ernest Mandel.
No segundo pós-guerra, o capitalismo viveu a sua "idade de ouro", segundo Eric Hobsbawn, em que coincidiram virtuosamente a maior expansão concomitante das grandes economias capitalistas - Estados Unidos, Alemanha, Japão -, do chamado "campo socialista", dirigido pela União Soviética, e por economias periféricas, como o México, a Argentina, o Brasil, com seus processos de industrialização dependente. A economia capitalista não deixou de apresentar os seus ciclos curtos de crise, mas cada novo ciclo retomava a expansão e empurrava a economia para patamares cada vez mais altos.
Foi um ciclo longo expansivo, comandado por grandes corporações internacionais de carácter industrial e comercial, apoiado por um sistema financeiro em expansão e por grandes transformações na produção agrícola. Um modelo hegemónico regulador - ou keynesiano ou de bem-estar, conforme se queira chamá-lo - incentivava os investimentos produtivos, tendia a fortalecer a demanda interna de consumo, promovia o fortalecimento dos Estados nacionais e a protecção das suas economias.
As crises, como é típico no capitalismo, expressavam processos de super-produção ou de sub-consumo - conforme se queira chamá-las -, reflectindo o desequilíbrio estrutural desse sistema entre sua - reconhecida já por Marx no Manifesto Comunista - enorme capacidade de expansão das forças produtivas, mas que se chocam constantemente com sua incapacidade de distribuir rendimentos na mesma medida daquela expansão.
Na sua fase final, o ciclo longo expansivo do segundo pós-guerra viu esse excedente, resultado acumulado da desfasagem entre produção e consumo transformar-se em capital financeiro - os chamados euro-dólares, que foi aproveitado por países como o Brasil para reciclar o seu modelo económico, diversificando a sua dependência externa e favorecendo a retomada da expansão económica interna, ainda antes do final do ciclo longo expansivo. Este factor - o golpe militar ainda no ciclo expansivo - diferenciou o cenário económico brasileiro do dos outros países da região, em que as ditaduras coincidiram com recessão, por já se darem no ciclo longo recessivo do capitalismo internacional.
Que características teve o final desse ciclo e o início do novo, de carácter recessivo? Tendo triunfado o diagnóstico de que a estagnação económica se devia ao excesso de regulamentações, o novo modelo centrou-se na desregulamentação, de que as privatizações, as aberturas para o mercado externo, as políticas de "flexibilização laboral", de ajuste fiscal, foram expressões.
Duas consequências mais importantes devem ser recordadas aqui, para entendermos o carácter da crise actual e os seus efeitos para os países latino-americanos. A primeira, o gigantesco processo de transferência de capitais do sector produtivo para o especulativo que a desregulamentação promoveu em escala nacional e internacional. Livre de travas, o capital migrou maciçamente para o sector financeiro e, em particular, para o sector especulativo, onde obtêm muito mais lucros, com muito maior liquidez e com menos ou nenhuma tributação para circular.
Configurou-se assim, no modelo neoliberal, a hegemonia do capital financeiro, sob a forma do capital especulativo, fazendo com que mais de 90% dos movimentos económicos se dêem não na esfera da produção ou do comércio de bens, mas na compra e venda de papéis, nas Bolsas de Valores ou de papéis das dívidas públicas dos governos.
Promoveu-se a financiarização das economias, o que significa, em primeiro lugar, a financiarização dos Estados, cujo primeiro e maior compromisso passa a ser o pagamento das dívidas, isto é, a reserva de recursos mediante o chamado "superávit primário" e a transferência maciça e sistemática de recursos do sector produtivo para o capital financeiro. Grandes grupos económicos têm à sua cabeça um banco ou uma instituição financeira, costumam ganhar mais nos investimentos financeiros que naqueles que deram origem às empresas que os compõem. Grande quantidade de pequenas e médias empresas entraram em processos de endividamento, dos quais não conseguem sair. Outras, assim como os consumidores, não se atrevem a buscar empréstimos, pelo medo ao endividamento, com as altas taxas de juros.
O capital financeiro passou a ser o sangue que corre pelas economias dos países, definindo o metabolismo que as preside. Um capital que tem na volatilidade, na sua extrema liquidez um elemento essencial, inerente, aquele que permite deslocar-se rapidamente para onde pode ter maiores vantagens e, ao mesmo tempo, lhe atribui um grande poder de pressão, diante da fragilidade das economias que dependem estruturalmente dele.
As crises na fase neoliberal
Dessas características decorre o carácter centralmente financeiro das crises no período neoliberal, como ficou evidenciado nas crises mexicana, asiática, russa, brasileira e argentina, entre outras. O sector financeiro canaliza para si os excedentes de capital, produto da desfasagem estrutural entre produção e consumo, agudizada na fase actual do capitalismo, em que a elevação da produtividade e a criatividade tecnológica continuaram a aprofundar-se, ao mesmo tempo que se deram processos de concentração de rendimentos entre as classes sociais, entre países e regiões do mundo.
O poder devastador dessas crises e o potencial de contágio revelaram-se da mesma dimensão do tamanho da abertura das economias ao mercado internacional e ao peso que o capital financeiro passou a desempenhar em escala nacional e mundial. O México continuou a sofrer os impactos da crise de 1994 por muitos anos. O mesmo ocorreu com países do sudeste asiático. No Brasil, a crise de 1999 significou a passagem a anos de recessão, que só recentemente foram superados. Na Argentina a crise teve consequências devastadoras do ponto de vista económico, financeiro, político e social.
São crises que são desencadeadas a partir do elo mais frágil, mais sensível, do processo de reprodução - o sector financeiro -, mas que rapidamente se propagam pelo restante da economia, pelo papel central que esse sector passou a ter e pelos aspectos psicológicos em que se assenta. Não por acaso o segundo livro de Francis Fukuyama se chamou "Confiança", para denotar como as expectativas, positivas ou negativas, assumem força material no jogo especulativo.
A América Latina foi assim vítima privilegiada dessas crises, que não por acaso atingiram justamente as suas três economias mais fortes, que haviam sido exibidas como modelares - a mexicana, a brasileira e a argentina. Nos três casos, a crise assumiu a forma de ataque especulativo, de crise financeira, que se alastra para o conjunto da economia. Os capitais especulativos valem-se do peso desestabilizador que tem na economia, para fazer valer essa posição, pressionando com uma saída brusca e maciça de capitais, acções governamentais ou simplesmente o jogo do mercado, lucrando enormemente com essas operações.
As crises anteriores tinham como cenários países da periferia, com efeitos que intensificaram a tendência ao enfraquecimento dos países globalizados e a intensificação da concentração de rendimentos e de poder dos países globalizadores. Mesmo a crise na Rússia poderia ser caracterizada como a de uma economia tornada periférica, especialmente em meados da década de 1990. A excepção foi a ataque do megaespeculador Georges Soros à libra esterlina inglesa, mas acabou por ser um caso pontual, que não altera a regra general de ocorrência das crises nas periferias.
No seu conjunto, como crises neoliberais, provocaram exigências de remédios neoliberais: mais abertura das economias - como passou fortemente nos países do sudeste asiático -, maiores empréstimos do FMI e as correspondentes Cartas de intenção, com aumento dos ajustes fiscais. A economia mexicana recebeu um empréstimo gigante dos Estados Unidos no momento da crise de 1994, inclusive porque se dava no próprio momento em que se assinava o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e do surgimento da rebelião dos zapatistas em Chiapas. Como compromisso, o México usou esses recursos para pagar os empréstimos dos bancos norte-americanos e continuou aprofundando o modelo neoliberal.
O governo brasileiro de Fernando Henrique Cardoso, frente à crise de 1999, elevou a taxa de juros a 49% e assinou a terceira Carta de intenções com o FMI, cujas consequências estenderam a recessão por vários anos. Na Argentina, a crise de explosão do modelo de paridade do peso com o dólar, produziu a maior regressão económica e social que o país conheceu em toda a sua história. O governo de Fernando de la Rua tentou manter o modelo herdado de Carlos Menem, e com isso caiu com poucos meses do seu mandato presidencial.
A crise actual e suas consequências
A crise anterior da economia norte-americano deu-se em 2000, quando se desvanecia a ilusão de que a "nova economia" permitiria que o capitalismo não sofresse mais as suas crises cíclicas, seja porque a informática permitira prevê-las e permitir que fossem evitadas, seja porque novas procuras, como as de computadores, gerariam, da mesma forma que no caso dos automóveis, o lançamento anual de novos modelos, que estenderiam cada vez mais a procura. Naquele momento, o papel do mercado norte-americano no mundo continuava sendo determinante no mundo, transferindo os efeitos da sua recessão para o resto da economia mundial.
Desta vez a crise norte-americana dá-se num cenário internacional modificado. A continua expansão de países emergentes - entre eles sobretudo a China e a Índia, mas também países latino-americanos, que mantêm ritmos constantes de crescimento, entre os quais particularmente o Brasil e a Argentina - amortece a diminuição da procura dos EUA e, pela primeira vez, a recessão da economia norte-americana não tem efeitos directos e devastadores sobre a economia mundial.
Porém, como essa crise se vê agravada com o aumento dos preços dos produtos agrícolas e a continuada crise do petróleo, constituindo-se, na verdade num tripla crise, os seus efeitos são mais profundos e extensos do que apenas uma crise cíclica da economia norte-americana. São afectadas então não apenas as exportações para os Estados Unidos, mas também os importadores de energia e de produtos agrícolas, lista que, numa ou noutra proporção, afecta todos os países do mundo.
No entanto, como todo o fenómeno de um sistema marcado pela extrema desigualdade de riqueza e de poder entre regiões e países e dentro de cada país, os efeitos das crises não são igualmente repartidos entre todos. Há ganhadores e perdedores, algozes e vítimas.
Como a crise está em pleno desenvolvimento, os seus alcances não podem ainda ser julgados em toda a sua plenitude e dão pugnas para ver quem consegue extrair vantagens, quem consegue perder menos, ainda não é possível saber com precisão os danos em toda sua extensão e quem arcará com eles. É certo que o mundo sairá modificado desta crise, até mesmo porque toca em três pontos nodais das relações económicas e de poder actuais: dinheiro, energia e comida. No entanto, as estruturas de poder, de produção e de distribuição de riqueza reinantes, garantem resultados absolutamente diferenciados para distintas regiões e países como efeito das crises.
Na combinação entre aumento dos preços do petróleo, dos produtos agrícolas e diminuição da procura dos EUA e da Europa, os países mais pobres, que somam a grande maioria da África, da Ásia e da América Latina, perderão claramente, com fortes pressões recessivas, défice na balança comercial e aumento do endividamento. Os países exportadores de petróleo e de produtos agrícolas com altas mais significativas terão as suas situações minoradas, mas as pressões inflacionárias não poupam nenhum país e, com elas, as políticas recessivas voltam a ganhar peso.
Para a América Latina, os efeitos são mais pesados e directos para os países que seguem dependendo mais fortemente do comércio com os Estados Unidos, o México, a América Central e as Caraíbas, em primeiro lugar. Em segundo lugar, os países com pautas exportadoras menos valorizadas ou aqueles que tiveram o seu ciclo de expansão económica excessivamente voltada para as exportações, em particular as economias mais abertas, entre elas as que têm tratados de livre comércio com os Estados Unidos, como o Chile, o Peru, além dos já mencionados México, Costa Rica e outros países centro-americanos e das Caraíbas. Relativamente menos afectados devem ser os países com pautas exportadoras mais diversificadas - seja nos produtos, seja nos mercados -, como o Brasil, em parte a Argentina, e os que participam dos processos de integração regional - seja o Mercosul, seja a Alba. Para estes, as crises são uma oportunidade especial para acelerar e intensificar os processos de integração, de comércio, assim como nos planos financeiro e energético.
Seja pela combinação das crises, seja porque afecta profundamente os Estados Unidos, no momento em que, pela primeira vez, o seu peso na economia mundial decresce, o mundo e a América Latina em particular, terão fisionomias distintas, seja acelerando transformações já em andamento, seja dando inicio a novas dinâmicas, passadas as crises - cujas durações e profundidades ainda não podem ser medidas com toda a precisão.

FONTE: ESQUERDA.NET
AUTOR: Emir Sader é sociólogo, Director do Laboratório de Políticas Públicas e actual Secretário Executivo do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO).
http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=8567&Itemid=121

Limites históricos do capitalismo

Crise vem pôr a nu os limites históricos do sistema capitalista

Nesta apresentação feita em 18 de Setembro em Buenos Aires, o economista marxista francês François Chesnais expõe a forma como o capitalismo, na longa fase de expansão que ficou atrás, tentou superar os seus limites imanentes. E como todas essas tentativas contribuíram para criar agora uma crise muito maior. Comparável à de 1929, mas que ocorre num contexto totalmente novo. (Por François Chesnais, publicado originalmente na Herramienta)

08-Out-2008


A tese que vou apresentar defende que no ano passado produziu-se uma verdadeira ruptura, que deixa para trás uma longa fase de expansão da economia capitalista mundial; e que essa ruptura marca o início de um processo de crise com características que são comparáveis à crise de 1929, ainda que venha a desenvolver-se num contexto muito diferente.
A primeira coisa que é preciso recordar é que a crise de 1929 se desenvolveu como um processo: um processo que começou em 1929, mas cujo ponto culminante se deu bastante depois, em 1933, e que logo abriu caminho a uma longa fase de recessão. Digo isto para sublinhar que, na minha opinião, estamos a viver as primeiras etapas, mas realmente as primeiras, primeiríssimas etapas de um processo dessa amplitude e dessa temporalidade. E que o que nestes dias está a acontecer e tem como cenário os mercados financeiros de Nova York, de Londres e de outros grandes centros bolsistas, é somente um aspecto - e talvez não seja o aspecto mais importante - do que se deve interpretar como um processo histórico.
Estamos diante de um desses momentos em que a crise vem exprimir os limites históricos do sistema capitalista. Não se trata de alguma versão da teoria da "crise final" do capitalismo, ou algo do estilo. Do que sim se trata, na minha opinião, é de entender que estamos confrontados com uma situação em que se exprimem estes limites históricos da produção capitalista. Não quero parecer um pastor com a sua Bíblia marxista, mas quero ler-vos uma passagem de O Capital:
"A barreira efetiva da produção capitalista é o próprio capital: o capital e a sua auto-expansão se patenteiam ponto de partida e meta, móbil e fim da produção; a produção existe apenas para o capital, ao invés de os meios de produção serem apenas meios de acelerar continuamente o desenvolvimento do processo vital para a sociedade dos produtores. Os limites intransponíveis em que se podem mover a manutenção e a expansão do valor-capital - as quais se baseiam na expropriação e no empobrecimento da grande massa dos produtores - colidem constantemente com os métodos de produção que o capital tem de empregar para atingir seu objetivo e que visam ao aumento ilimitado da produção, à produção como fim em si mesma, ao desenvolvimento incondicionado das forças produtivas sociais do trabalho. O meio empregue - desenvolvimento ilimitado das forças produtivas sociais - está em permanente conflito com o objetivo limitado, a valorização do capital existente. Por conseguinte, se o modo de produção capitalista é um meio histórico para desenvolver a força produtiva social e criar o mercado mundial apropriado, é ele ao mesmo tempo a contradição permanente entre essa missão histórica e as relações sociais de produção que lhe correspondem"1
Bom, certamente que há algumas palavras que hoje já não utilizamos, como "missão histórica"... Mas creio que o que vamos ver nos próximos anos vai dar-se precisamente na base de já ter sido criado em toda a sua plenitude esse mercado mundial intuído por Marx. Quer dizer, temos um mercado e uma situação mundial diferentes da de 1929, porque nessa altura países como a China e a Índia eram ainda semi-coloniais, enquanto que agora já não têm esse carácter; são grandes países que, mais além de terem um carácter combinado que requer uma análise cuidadosa, são agora participantes de pleno direito dentro de uma economia mundial única, uma economia mundial unificada num grau desconhecido até esta etapa da história. A citação pode ajudar-nos a entender o momento actual, e a crise que se iniciou precisamente neste marco de um só mundo.
Um novo tipo de crise
Na minha opinião, nesta nova etapa, a crise vai desenvolver-se de tal modo que as primeiras e realmente brutais manifestações da crise climática mundial vão combinar-se com a crise do capital enquanto tal. Entrámos numa fase em que se coloca realmente uma crise da humanidade, dentro de complexas relações nas quais se incluem também os acontecimentos bélicos, mas o mais importante é que, mesmo excluindo a explosão de uma guerra de grande amplitude que, no presente momento, só podia ser uma guerra atómica, estamos confrontados com um novo tipo de crise, com uma combinação desta crise económica, que começou, com uma situação na qual a natureza, tratada sem a menor contemplação e atacada pelo homem no marco do capitalismo, reage agora de forma brutal. Isto é uma coisa quase excluída das nossas discussões, mas que vai impor-se como um facto central.
Por exemplo, muito recentemente, lendo o trabalho de um sociólogo francês, fiquei a saber que os glaciares andinos dos quais flui a água com que se abastecem La Paz e El Alto estão esgotados em mais de 80%, e estima-se que dentro de 15 anos La Paz e El Alto não vão ter água... e, no entanto, isto é algo que nunca foi tratado, nunca se discutiu um facto de tamanha magnitude que pode fazer com que a luta de classes na Bolívia, tal como a conhecemos, mude substancialmente - por exemplo fazendo com que a tal controversa mudança da capital para Sucre se imponha como uma coisa "natural", porque acabou a água em La Paz.
Estamos a entrar num período desse tipo e o problema é que quase não se fala disso, enquanto que nos ambientes revolucionários continuam a discutir-se coisas que neste momento são minúcias, questões completamente mesquinhas em comparação com os desafios que temos pela frente.
Limites imanentes do capitalismo
Para continuar com a questão dos limites do capitalismo, quero chamar a atenção para uma citação de Marx, imediatamente anterior à já citada: "A produção capitalista procura sempre ultrapassar esses limites imanentes, mas ultrapassa-os apenas com meios que de novo lhe opõem esses mesmos limites, agora em escala ainda mais potente"2 Esta indicação introduz-nos a análise e a discussão dos meios a que se recorreu, durante os últimos 30 anos, para superar os limites imanentes do capital.
Esses meios foram, em primeiro lugar, todo o processo de liberalização das finanças, do comércio e do investimento, todo o processo de destruição das relações políticas surgidas na raíz da crise de 29 e dos anos 30, depois da Segunda Guerra Mundial e das guerras de libertação nacional... Todas essas relações, que exprimiam o domínio do capital mas representavam ao mesmo tempo formas de controlo parcial do mesmo capital, foram destroçadas e, por algum tempo, pareceu ao capital que com isto ficavam superados os limites postos à sua actuação.
A segunda forma que se escolheu para superar esses limites imanentes do capital foi recorrer, numa escala sem precedentes, à criação de capital fictício e de meios de crédito para ampliar uma procura insuficiente no centro do sistema.
E a terceira forma, a mais importante historicamente para o capital, foi a reincorporação, enquanto elementos plenos do sistema capitalista mundial, da União Soviética e seus "satélites", e da China.
Só no marco das resultantes destes três processos é possível captar a amplitude e a novidade da crise que se inicia.
Liberalização, mercado mundial, competição... Comecemos por nos interrogar sobre o que significou a liberalização e a desregulação levadas a cabo à escala mundial, com a incorporação do antigo "campo" soviético e a incorporação e a modificação das relações de produção na China... O processo de liberalização e desregulação significou o desmantelamento dos poucos elementos reguladores que se tinham construído no marco internacional ao sair da Segunda Guerra Mundial, para entrar num capitalismo totalmente desregulamentado. E não só desregulamentado, como também um capitalismo que criou realmente o mercado mundial no pleno sentido do termo, convertendo em realidade o que era em Marx uma intuição ou antecipação. Pode ser útil precisar o conceito de mercado mundial e ir talvez mais além da palavra mercado. Trata-se da criação de um espaço livre de restrições para as operações do capital, para produzir e realizar mais-valias, tomando este espaço como base e processo de centralização de lucros à escala verdadeiramente internacional. Esse espaço aberto, não homogéneo mas com uma redução drástica de todos os obstáculos à mobilidade do capital, essa possibilidade para o capital de organizar à escala universal o ciclo de valorização, está acompanhado de uma situação que permite pôr em competição entre si os trabalhadores de todos os países. Quer dizer, sustenta-se no facto de o exército industrial de reserva ser realmente mundial e de ser o capital como um todo que rege os fluxos de integração ou de repulsão, nas formas estudadas por Marx.
Este é então o marco geral de um processo de "produção para a produção" em condições em que a possibilidade de a humanidade e as massas do mundo acederem a essa produção é totalmente limitada... e, portanto, torna-se cada vez mais difícil o encerramento com êxito do ciclo de valorização do capital, para o capital no seu conjunto, e para cada capital em particular. E por isso se ampliam e se fazem mais determinantes no mercado mundial "as leis cegas da competição". Os bancos centrais e os governos podem proclamar que vão pôr-se de acordo entre si e colaborar para impedir a crise, mas não creio que se possa introduzir a cooperação no espaço mundial convertido em cenário de uma tremenda competição entre capitais. E agora, a competição entre capitais vai muito mais além das relações entre os capitais das partes mais antigas e mais desenvolvidas do sistema mundial, com os sectores menos desenvolvidos do ponto de vista capitalista. Porque sob formas particulares e inclusive muito parasitárias, no marco mundial deram-se processos de centralização do capital por fora do marco tradicional dos centros imperialistas: em relação com eles, mas em condições que também introduzem algo totalmente novo no marco mundial.
Durante os últimos 15 anos, e em particular durante a última etapa, desenvolveram-se, em determinados pontos do sistema, grupos industriais capazes de integrar-se como sócios de pleno direito nos oligopólios mundiais. Tanto na Índia como na China constituíram-se verdadeiros e fortes grupos económicos capitalistas. E, no plano financeiro, como expressão do rentismo e do parasitismo puro, os chamados Fundos Soberanos converteram-se em importantes pontos de centralização do capital sob a forma de dinheiro, que não são meros satélites dos Estados Unidos, têm estratégias e dinâmicas próprias e modificam de muitas maneiras as relações geopolíticas dos pontos-chave em que a vida do capital se faz e fará.
Por isso, outro elemento a ter em conta é que esta crise tem como outra de suas dimensões a de marcar o fim da etapa em que os Estados Unidos podiam actuar como potência mundial sem comparação... Na minha opinião, saímos do momento que analisava Mészáros no seu livro de 2001, e os Estados Unidos vão ser submetidos a uma prova: num prazo muito curto, todas as suas relações mundiais modificaram-se e terão, no melhor dos casos, de renegociar e reordenar todas as suas relações com base no facto de que têm de partilhar o poder. E isto, evidentemente, é algo que nunca aconteceu de forma pacífica na história do capital... Então, primeiro elemento: um dos métodos escolhidos pelo capital para superar os seus limites transformou-se em fonte de novas tensões, conflitos e contradições, indicando que uma nova etapa histórica vai abrir caminho através desta crise.
Criação descontrolada de capital fictício
O segundo meio utilizado para superar os limites do capital das economias centrais foi que todas elas recorreram à criação de formas totalmente artificiais de ampliação da procura efectiva, as quais, somando-se a outras formas de criação de capital fictício, geraram as condições para a crise financeira que se desenvolve hoje. No artigo que os companheiros de Herramienta tiveram a gentileza de traduzir para o castelhano e publicar3, abordei com alguma profundidade esta questão do capital fictício e as novas formas que se deram dentro do próprio processo de acumulação do capital fictício. Para Marx, o capital fictício é a acumulação de títulos que são "sombra de investimentos" já feitos mas que, como títulos de bónus e de acções, aparecem com o aspecto de capital aos seus detentores. Não o são para o sistema como um todo, para o processo de acumulação, mas são-no sim para os seus detentores e, em condições normais de fecho de processos de valorização do capital, rendem aos seus detentores dividendos e juros. Mas o seu carácter fictício revela-se em situações de crise. Quando ocorrem crises de sobreprodução, falência de empresas, etc., descobre-se que esse capital não existia... Por isso também pode ler-se às vezes nos jornais que tal ou qual quantidade de capital "desapareceu" nalgum tropeço bolsista: essas quantias nunca tinham existido como capital propriamente dito, apesar de, para os detentores dessas acções, representarem títulos que davam direito a dividendos e juros, a receber lucros...
Evidentemente, um dos grandes problemas de hoje é que, em muitíssimos países, os sistemas de aposentação estão baseados em capital fictício, com pretensões de participação nos resultados de uma produção capitalista que pode desaparecer em momentos de crise. Toda a etapa de liberalização e de globalização financeira dos anos 80 e 90 esteve baseada em acumulação de capital fictício, sobretudo em mãos de fundos de investimento, fundos de pensões, fundos financeiros... E a grande novidade desde finais ou meados dos anos 90 e a todo o largo dos anos 2000 foi, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha em particular, o impulso extraordinário que se deu à criação de capital fictício na forma de crédito. De crédito a empresas, mas também e sobretudo de créditos às famílias, crédito ao consumo e sobretudo créditos hipotecários. E isso fez dar um salto na massa de capital fictício criado, dando origem a formas ainda mais agudas de vulnerabilidade e de fragilidade, inclusive diante de choques menores, inclusive diante de episódios absolutamente previsíveis. Por exemplo, em base a tudo o estudado anteriormente, sabia-se que um boom imobiliário acaba; que inexoravelmente chega um momento em que, por processos muito bem estudados, termina; e, se pode até ser relativamente compreensível que no mercado de acções existisse a ilusão de que não havia limites para a subida no preço das acções, com base a toda a história anterior sabia-se que que isso não podia ocorrer no sector imobiliário: quando se trata de edifícios e de casas é inevitável que chegue o momento em que o boom acaba. Mas colocaram-se em tal situação de dependência, que esse acontecimento completamente normal e previsível transformou-se numa crise tremenda. Porque a tudo o que já disse, juntou-se o facto de que durante os dois últimos anos os empréstimos faziam-se a famílias que não tinham a menor possibilidade de os pagar. Além disso, tudo isso se combinou com as novas "técnicas" financeiras que tentei explicar com um grau aceitável de vulgarização no meu artigo da Herramienta, permitindo-se assim que os bancos vendessem bónus em condições tais que ninguém podia saber exactamente o que estava a comprar... até a explosão dos subprime em 2007.
Agora estão a desmontar este processo. Mas dentro dessa desmontagem, há processos de concentração do capital financeiro. Quando o Bank Of America compra o Merrill Lynch, estamos diante de um processo de concentração clássico. E vemos além disso estes processos de estatização das dívidas, que implicam na criação imediata de mais capital fictício. A Reserva Federal dos Estados Unidos cria mais capital fictício para manter a ilusão de um valor do capital que está à beira de desmoronar, com a perspectiva de ter, em algum momento dado, a possibilidade de aumentar fortemente a pressão fiscal, mas na realidade não pode fazê-lo porque isso significaria o congelamento do mercado interno e a aceleração da crise enquanto crise real. Assistimos, pois, a uma fuga em frente que não resolve nada. Dentro desse processo existe também o avanço dos Fundos Soberanos, que procuram modificar a repartição intercapitalista dos fluxos financeiros a favor dos sectores rentistas que acumularam estes fundos. E isto é um factor de perturbação ainda maior no processo.
Quero recordar, para terminar este ponto, que esse défice comercial de cinco pontos do PIB é o que confere aos Estados Unidos a particularidade desse lugar-chave para a concretização do ciclo do capital no momento da realização da mais-valia, para o processo capitalista no seu conjunto. Confrontados agora com uma quase inevitável retracção económica, coloca-se como a grande interrogação se, num curto prazo, a procura interna chinesa poderá passar a ser o lugar que garanta esse momento de realização da mais-valia que se dava nos Estados Unidos. A amplitude da intervenção do Tesouro é muito forte e conseguiu que a contracção da actividade nos EUA e a queda das importações tenha sido até agora muito limitada. O problema é saber quanto tempo se poderá ter como único método de política económica criar mais e mais liquidez... Será possível que não haja limites à criação de capital fictício sob a forma de liquidez para manter o valor do capital fictício já existente? Parece-me uma hipótese demasiado optimista, e entre os próprios economistas norte-americanos, muitos duvidam.
Sobreacumulação na China?
Para terminar, chegamos à terceira maneira pela qual o capital superou os seus limites imanentes, que é definitivamente a mais importante de todas e levanta as interrogações mais interessantes. Refiro-me à extensão, em particular para a China, de todo o sistema de relações sociais de produção do capitalismo. Algo que Marx mencionou nalgum momento como possibilidade, mas que só se fez realidade durante os últimos anos. E realizou-se em condições que multiplicam os factores de crise.
A acumulação do capital na China fez-se com base em processos internos, mas também com base em algo que está perfeitamente documentado, mas pouco comentado: a transferência de uma parte importantíssima do Sector II da economia, o sector da produção de meios de consumo, dos Estados Unidos para a China. E isto tem muito a ver com o grosso dos défices norte-americanos (o défice comercial e o fiscal), que só poderiam reverter-se por meio de uma "reindustrialização" dos Estados Unidos.
Isto significa que se estabeleceram novas relações entre os Estados Unidos e a China. Já não são as relações de uma potência imperialista com um espaço semicolonial. Os Estados Unidos criaram relações de um novo tipo, que agora têm dificuldades de reconhecer e de assumir. Com base no superavit comercial, a China acumula milhões e milhões de dólares, que logo empresta aos Estados Unidos. Uma ilustração das consequências que isto traz, temo-la com a nacionalização dessas duas entidades chamadas Fannie Mae e Freddy Mac: ao que parece, a banca da China tinha 15% dos fundos dessas duas entidades e comunicou ao governo americano que não aceitaria a sua desvalorização. São relações internacionais de tipo completamente novo.
Mas que ocorre no seio da própria China? No meu artigo na Herramienta já citado, havia uma só página sobre isto, e no final; mas de alguma maneira é a questão mais decisiva para a próxima etapa da crise. Na China deu-se internamente um processo de competição entre capitais, que se combinou com processos de competição entre sectores do aparelho político chinês, e de competição para atrair empresas estrangeiras; tudo isso resultou num processo de criação de imensas capacidades de produção, além de violentar a natureza numa escala enorme: na China concentra-se uma sobreacumulação de capital que num momento dado se tornará insustentável.
Na Europa, é evidente a tendência a uma aceleração da destruição de capacidades produtivas e de postos de trabalho, para transferir-se para o único paraíso do mundo capitalista que é a China. Considero que esta transferência de capitais para a China significou uma reversão de processos anteriores de uma alta da composição orgânica do capital. A acumulação é intensiva em meios de produção e é intensiva e muito delapidadora da outra parte do capital constante, quer dizer, das matérias primas. A maciça criação de capacidades de produção no Sector I foi acompanhada por todos os mecanismos e o impulso que caracterizam o crescimento da China, mas o mercado final para sustentar toda essa produção é o mercado mundial, e uma retracção deste porá em evidência essa sobreacumulação do capital. Alguém como Aglietta, que estudou isto especificamente, afirma que realmente há sobreacumulação, há um processo acelerado de criação produtiva na China, um processo que, no momento em que terminar - e tem de terminar - a realização de toda essa produção vai levantar problemas. Além disso, a China é realmente um lugar decisivo, porque até pequenas variações na sua economia determinam a conjuntura de muitos outros países no mundo. Foi suficiente que a procura chinesa por bens de investimento caísse um pouco, para que a Alemanha perdesse exportações e entrasse em recessão. As "pequenas oscilações" na China têm repercussões fortíssimas noutros lugares, como deveria ser evidente no caso da Argentina.
Para continuar a pensar e a discutir
E regresso ao que estava a dizer no início. Ainda que sejam comparáveis, as fases desta crise vão ser diferentes das de 29, porque naquela época a crise de superprodução dos Estados Unidos verificou-se desde os primeiros momentos. Depois aprofundou-se, mas soube-se de imediato que se estava diante de uma crise de superpodução. Agora, em contrapartida, estão a adiar esse momento com diversas políticas, mas não vão poder fazê-lo muito mais. Simultaneamente, e como ocorreu também na crise de 29 e nos anos 30, ainda que em condições e sob formas diferentes, a crise combinar-se-á com a necessidade, para o capitalismo, de uma reorganização total da expressão das suas relações de forças económicas no marco mundial, marcando o momento no qual os Estados Unidos verão que a sua superioridade militar é somente um elemento, e um elemento bastante subordinado, para renegociar as suas relações com a China e outras partes do mundo. Ou vai chegar o momento no qual dará o salto para uma aventura militar de consequência imprevisíveis.
Por tudo isto, concluo que vivemos muito mais que uma crise financeira, mesmo estando agora nessa fase, mesmo se o artigo publicado pela Herramienta teve de concentrar-se em tentar iluminar os enredos do capital fictício para entender porque a desmontagem desse capital é tão difícil; mas estamos diante de uma crise muitíssimo mais ampla. Ora bem, tenho a impressão, pelo tom das diferentes perguntas e observações que me fizeram, que muitos são da opinião que estou a pintar um cenário de tipo catastrofista, de desmoronamento do capitalismo... Na realidade, creio que estamos diante do risco de uma catástrofe, mas já não do capitalismo, e sim de uma catástrofe da humanidade. De certa forma, se tomarmos em conta a crise climática, possivelmente já existe algo assim... A minha opinião (junto com Mészáros, por exemplo, mas somos muito poucos os que damos importância a isto) é que estamos diante de um perigo iminente. O dramático é que, de momento, isto afecta directamente populações que não são levadas em conta: o que está a ocorrer no Haiti parece que não tem a menor importância histórica; o que acontece no Bangladesh não tem peso mais além da região afectada; muito menos o que acontece na Birmânia, porque o controlo da Junta militar impede que ultrapasse as suas fronteiras. E o mesmo na China: discutem-se os índices de crescimento, mas não as catástrofes ambientais, porque o aparelho repressivo controla as informações sobre as mesmas.
E o pior é que essa "opinião", que está a ser constantemente construída pelos média, está interiorizada muito profundamente, inclusive em muitos intelectuais de esquerda. Tinha começado a trabalhar e a escrever sobre tudo isto, mas com o começo desta crise, de alguma forma tive de voltar a ocupar-me das finanças, ainda que não o faça com muito gosto, porque o essencial parece-me que se joga num plano diferente.

Para terminar: o facto de que tudo isto ocorre depois desta fase tão larga, sem paralelo na história do capitalismo, de 50 anos de acumulação ininterrupta (salvo um pequeníssima ruptura em 1974/1975), assim como também tudo o que os círculos capitalistas dirigentes, e em particular os bancos centrais, aprenderam da crise de 29, tudo isso faz com que a crise avance de maneira bastante lenta. Desde Setembro do ano passado, o discurso dos círculos dominantes vem afirmando, uma e outra vez, que "o pior já passou", quando o certo é que, uma e outra vez, "o pior" estava por vir. Mas insisto no risco de minimizar a gravidade da situação, e sugiro que nas nossas análises e na forma de abordar as coisas deveríamos incorporar a possibilidade, no mínimo a possibilidade, de que inadvertidamente estejamos também interiorizando esse discurso de que, definitivamente, "não acontece nada"...
François Chesnais é um destacado economista marxista, faz parte do Conselho científico do ATTAC-França, é director de Carré rouge e membro do conselho assessor de Herramienta, com a qual colabora assiduamente. La finance capitaliste, último livro publicado sob a sua direcção, está a ser traduzido para o castelhano para ser publicado pelas Ediciones Herramienta.
Esta apresentação foi realizada no encontro organizado pela revista argentina Herramienta em 18 de Setembro de 2008. A transcrição e preparação para a sua publicação é de Aldo Casas.
Tradução de Luis Leiria


1 Karl Marx, ‘O Capital', Difel, São Paulo, 1983, Livro III, Vol. IV, pág. 287-288. A tradução de Reginaldo Sant'Anna foi ligeiramente retocada pelos editores de O Comuneiro.


2 Idem, pág. 287


3 "El fin de un ciclo. Alcance y rumbo de la crisis financiera", en Herramienta Nº 37, marzo 2008.

FONTE: ESQUERDA.NET
http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=8630&Itemid=121

Lula na Índia

Lula na Índia: Brasil, Índia e África do Sul assinam acordos

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, encerrou nesta quarta-feira (15) sua visita à Índia, onde participou da 3ª Reunião de Cúpula do IBAS (grupo que reúne Índia, Brasil e África do Sul). O presidente seguiu para Moçambique onde fará, amanhã (16), uma visita ao país africano de língua portuguesa.
15 DE OUTUBRO DE 2008 - 20h05

Além de discutir formas de ampliar o comércio entre os três países e de cooperação em assuntos como a aviação civil, meio ambiente, turismo e a defesa das mulheres, os chefes de governo dos três países conversaram sobre a crise internacional e a conclusão da Rodada Doha, de liberalização do comércio mundial.
Da reunião de Lula com o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, e o presidente sul-africano, Kgalema Motlanthe, surgiu, inclusive, a idéia de se convocar uma reunião emergencial entre os ministros da Fazenda e de Comércio e dos presidentes dos Bancos Centrais dos três países, para discutir formas de lidar com a crise financeira.
''O fato de os presidentes terem instruído os ministros da Fazenda e os presidentes dos Bancos Centrais a entrarem em acordo não é uma coisa trivial. Isso é uma coisa nova'', afirmou o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, ao fazer um balanço da visita.
Lula encerrou a visita à Índia com uma reunião com a presidente indiana, Pratibha Patil, no Palácio Presidencial, em Nova Délhi. Lula ainda assistiu a um espetáculo de dança típica da Índia e jantou com a presidente indiana, o primeiro-ministro Manmohan Singh e o sul-africano Kgalema Motlanthe.
Acordos assinados
Brasil, África do Sul e Índia assinaram vários convênios e dois planos de ação para fomentar a cooperação trilateral em comércio, turismo, meio ambiente e o transporte marítimo e aéreo.
Um dos documentos assinados é um memorando de entendimento de facilitação comercial com o qual se pretende entrar em acordo sobre regras, regulamentações técnicas e normas que contribuam para agilizar o comércio trilateral.
Outro memorando de entendimento estabelece um grupo de trabalho sobre o meio ambiente, o qual terá a tarefa de institucionalizar a cooperação nesta esfera.
Um terceiro memorando está destinado a estabelecer um centro de pensamento para especialistas e catedráticas femininas com o objetivo de discutir e propor programas destinados a fomentar o desenvolvimento das mulheres e a igualdade de gênero.
O acordo sobre turismo contempla a assistência para capacitar e desenvolver os recursos humanos neste setor.
Os dois planos de ações sobre transporte marítimo e aéreo cobrem 10 áreas de cooperação com o objetivo de facilitar o intercâmbio, o comércio e a segurança no uso destes meios entre os três países.
Na véspera da 3.ª Cúpula de IBAS, desenvolveram-se também em Nova Deli um foro de negócio, outro acadêmico, um sobre o problema que enfrentam as mulheres e um quarto de editores de imprensa.
Cada um deles apresentou para a consideração dos dignatários relatórios separadamente com sugestões e propostas para atender os problemas que se apresentam nessas áreas.
Nova ordem mundial
Lula considerou que a atual crise financeira provocada pelos países ricos mostra a prevalecente necessidade do estabelecimento de uma nova ordem mundial.
''Como economias emergentes, temos que assumir a responsabilidade de definir uma nova ordem global, tanto política, financeira como econômica'', enfatizou o mandatário brasileiro.
''Não faz sentido'', acrescentou, ''que o comércio entre países como os nossos seja afetado por problemas financeiros oriundos de nações ricas e provocados por especuladores que transformam o mundo em um grande cassino'', ressaltou.
Lula convidou a ''colocar nossa vontade política, nossa imaginação criativa a serviço das relações que nos protejam das volatilidades geradas pela especulação''.
Citou como exemplo que o comércio atual entre seu país e a Argentina funciona em moeda local, sem necessidade de usar o dólar.
Neste sentido, chamou a diversificar o intercâmbio Sul-Sul com a participação de uma maior quantidade de nações em desenvolvimento, para assim serem menos vulneráveis a crises como a atual.
Igualmente, sugeriu que a Índia, Brasil e a África do Sul, como países mais desenvolvidos do Sul, estendam sua solidariedade com os mais pobres através do Fundo do IBAS e seu potencial de cooperação.
Lula enfatizou a necessidade de políticas dirigidas para combater a pobreza e garantir a alimentação. ''É imperativo conceber um novo modelo mundial de produção e abastecimento de alimentos'', afirmou.
Com respeito ao comércio mundial, considerou inadmissível que os subsídios agrícolas dos países ricos sigam gerando fome e prejudiquem as agriculturas do mundo em desenvolvimento.
Essa é uma luta que o G-20 e ''nossos países devem continuar para conseguir a conclusão da Rodada de Doha'', concluiu.

FONTE: VERMELHO.ORG
http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=45025

Bush caracteriza a 'Era Pato Manco'

Fim de mandato Bush caracteriza a 'Era Pato Manco'

A administração Bush vem veloz para seu fim, com a cada vez mais marcante inação presidencial evidenciando o que toda a mídia americana conservadora temia em apreciar: Bush não é um líder à altura dos Estados Unidos. (Por Humberto Alencar)
26 DE SETEMBRO DE 2008 - 20h42

Após as controversas eleições de 2000, quando George W. Bush foi alçado à condição de presidente do Império americano pela Corte Suprema do país, ao julgar uma açao do concorrente Al Gore, que havia obtido mais votos que Bush, ninguém imaginava que o atual administrador fosse enveredar pelo caminho vacilante que marca o fim de seu mandato.
Em 2001, Bush reagiu aos ataques de 11 de setembro com alguma 'lentidão', mas o país se viu satisfeito com a resposta que sua administração deu à não provada agressão estrangeira às torres de Nova York e ao Pentágono.
O chamado à guerra foi aclamado por quase todos os americanos, quando a popularidade do presidente bateu níveis altíssimos. Mais de 90% dos habitantes do país aprovavam os clamores guerreiros de seu chefe.
Altos índices de apoio são comuns para os presidentes em tempo de guerra, mas Bush conseguiu mantê-los durante um ano após os atentados. Em novembro de 2002, Bush tinha índices de apoio mais altos do que qualquer outro presidente, desde Dwight Eisenhower.
A decisão de atacar o Afeganistão, realizada em outubro de 2001, foi-lhe comunicada ''por Deus''. É assim que Bush faz crer. O ex-primeiro ministro da Alemanha, Gerhard Schröder, declarou seguidas vezes à mídia que o presidente americano tomava decisões após ''consultas diárias a Deus''. Apesar disso, Bush nunca declarou publicamente a sua religião.

'Iraque nada em petróleo'
Alardeou a 'Guerra ao Terrorismo' e demonizou Osama bin Laden, um multimilionário árabe de uma família aliada em negócios petrolíferos dos Bush. Em março de 2003 invadiu e iniciou a ocupação do Iraque. Alegou para isso que o país árabe, dirigido pelo presidente Saddam Hussein, dava apoio logístico à al-Qaida e tinha ''armas de destruição em massa''.
A ONU não aprovou a agressão. França, Rússia e Alemanha se opuseram. Mesmo assim, as tropas da ''coalizão'' apoiada pelo britânico Blair e pelo espanhol Aznar invadiram o Iraque.
Pouco tempo depois vieram à tona os motivos sinceros da invasão. Em uma entrevista à mídia americana, o ex-vice-secretário da Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz, afirmou que ''nadar em petróleo'' foi a principal razão para a ação militar no Iraque: ''A principal diferença é que no caso do Iraque, economicamente falando, nós simplesmente não tínhamos escolha. O país [Iraque] nada em um mar de petróleo''.
No âmbito da política interna, Bush realizou intervenções consideradas importantes na economia, que desembocaram na atual crise financeira. Entre as leis mais agudas que Bush fez aprovar num Congresso dominado, à época, pelos republicanos, estão vários cortes de impostos, o ato ''Nenhuma Criança Deixada para Trás'', e as reformas no sistema de saúde.
Enquanto os simpatizantes de Bush alegavam que os cortes de impostos aumentariam a ''prosperidade da recuperação da economia'' e propiciariam a ''criação de empregos'', os seus oponentes denunciaram que Bush estava criando um déficit histórico. Deu no que deu.
Veio o furacão Katrina, em agosto de 2005, assolando Nova Orleans e os estados do sudeste americano. Bush, alertado, fez pouco caso. Há vídeos na Internet provando que ele ignorou vários alertas sobre a gravidade da situação. Mais por arrogância, menos por ignorância. Mais de 1.400 moradores de Nova Orleans, principalmente negros e pobres, morreram na esteira do Katrina.
A imagem de Bush começou a contrastar. De megafone nas mãos, sobre os destroços do Word Trade Center, e à bordo do Air Force One, distante dos pobres e dos destroços que boiavam em Nova Orleans. A imagem que queria deixar no fim de sua administração, a de um "conservador compassivo", começava a submergir nas águas trazidas pelo furacão.
O golpe quase fatal nessa imagem foi dado três anos depois, no mesmo ''fatídico'' mês de agosto. No sétimo dia do mês, às vésperas da abertura dos jogos Olímpicos de Pequim, o presidente Mikhail Saakashvili, da Geórgia, deu luz verde a um ataque contra Tskhinvalí, capital da região autônoma da Ossétia do Sul.
Duas mil pessoas foram mortas. A cidade foi quase inteiramente arrasada e a população osseta, de 70 mil pessoas, fugiu para o norte, em busca de refúgio na vizinha Ossétia do Norte, uma região autônoma russa e formada pela mesma etnia.
A agressão georgiana foi respondida com dureza pelos russos. O país atacou instalações militares georgianas, despejou blindados e tropas dentro da Geórgia e desafiou abertamente o aliado de Saakashvili, que naquela altura acompanhava o nadador Michael Phelps nas disputas de natação do Cubo d'Água em Pequim.
Bush não deu a mão ao seu aliado, o que significaria uma guerra aberta com a Rússia. Reagiu com um muxoxo de insatisfação e não tomou nenhuma das medidas que ameaçou tomar contra a Rússia. O assunto, que fez eclodir na mídia a velha ladainha anti-comunista da epóca da guerra fria, evaporou, junto com a cada vez mais ausente liderança do país.
Como a cereja do bolo, só faltava uma crise financeira para fazer o apodo de ''pato manco'' colar de vez em Bush. Em 15 de setembro a famigerada bolha imobiliária estourou, levando consigo — de acordo com as previsões mais pessimistas — cerca de US$ 1,3 trilhões de dólares da economia americana pelo ralo.
Bush permaneceu inerte. Veio admitir em público que o país estava em crise nove dias depois, na última quarta-feira. Mesmo em seu discurso na Assembléia Geral da ONU, Bush evitou falar do assunto.

Por sua vez, Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA, e Ben Bernanke, titular do banco central americano, ocuparam o cenário que pertence ao líder dos Estados Unidos, fazendo um apelo ao Congresso para que os legisladores aprovem com rapidez as medidas que, segundo os dois, poderiam debelar os estragos causados pelo espoucar da bolha imobiliária.
Sobre a crise financeira, Bush limitou-se a dizer, na ONU que: ''é preciso agir com a urgência que a crise precisa''. E mais além rolou outro inerte ''Precisamos trabalhar em termos de metas e nos mantermos firmes em relação às nossas propostas''. O discurso se preocupava mais com a 'luta anti-terrorista' e questões secundárias.
Omisso naquela ocasião, Bush fez um pronunciamento dramático, na quarta-feira, transmitido simultaneamente para o mundo inteiro, afirmando que a ''economia inteira está em perigo''. Bush estava visivelmente abalado, suas mãos tremiam e seu rosto exprimia seu estado de dilaceração emocional, já que se via prestes a entrar para a história como o presidente ''pato manco''.
A derrota imposta nesta quinta-feira pelo seu partido ao plano de socorro ao mercado financeiro colocou o homem ''mais poderoso do planeta'' metido em uma grande enrascada, e ele não tem a mínima idéia de que fazer para sair dela.
FONTE: VERMELHO.ORG

A 'vitória' de Micarla

A vitória de Micarla segundo o olhar do repórter

Outubro 7, 2008

Exerci minha cidadania pela manhã. Votei mais ou menos às dez horas e trinta e cinco minutos. Na minha sessão pouco movimento e tudo muito tranqüilo. Em um domingo ensolarado eu e algumas milhares de pessoas esperávamos a abertura das urnas.
As cores de Natal se resumiram no tão famoso verde, que não era o bacurau como é tradicional no RN, e o vermelho que continuava sendo a cor famosa dos bicudos. As urnas foram abertas às 17 horas. A ansiedade tomou conta de todos que ficaram na expectativa da apuração.
No dia anterior saíram algumas pesquisas que apontavam segundo turno. A pesquisa Start/Jornal de Hoje, foi exata. Cravou 50.9% dos votos para Micarla. Depois das 21 horas era o que se confirmaria.
A festa de Micarla começou em frente a TV Ponta Negra, de propriedade de tal candidata. Como a maioria das pessoas que conheço estavam lá, resolvi caminhar para o Alecrim, contando com a sorte de encontrar com a vencedora do pleito.
O clima na rua presidente Quaresma era de festa, mesmo com trinta por cento dos votos apurados. Carro de som e todo mundo de verde, menos eu. Animação e uma bandeira do PT. Isso mesmo do PT. Meia dúzia de, digamos, ‘micarlistas’ pulava sob a bandeira com a estrela e o número 13.
Alguns seguranças guardam a entrada da TV. Uma amiga me chama para entrar, pois dali em diante ninguém mais entra. Entrei e sentei. O telão ligado em um dos estúdios apontava 51% dos votos para Micarla de Sousa, mas a festa ainda não estava pronta. Faltava mais quarenta e nove por cento a serem apurados.
A cada minuto chega mais e mais gente. Uns entram na TV, outros, a maioria, ficam lá fora esperando o resultado. Em uma das salas, gritos. Os votos apurados chegam a oitenta por cento. A vantagem aumenta. A vitória está próxima. As pessoas vão soltando grito lá fora e a música em um dos carros aumenta, estronda. Dentro da TV mais comemoração, gritos e abraços. Chegamos a 96% dos votos apurados, a partir de agora mesmo que todos os votos restantes sejam de Fátima Bezerra, segunda colocada na apuração, Micarla vence no primeiro turno. E venceu.
“Coloca na Band”, grita um homem de óculos e cabelo grisalho. Rapidamente um dos funcionários liga na emissora citada. É Micarla falando. A prefeita de Natal. Lá fora o povo comemora mais e mais; bandeiras se agitam. Aquele som que estava alto consegue ser mais alto ainda. Na entrevista de Micarla como prefeita ninguém ouve nada. Me aproximo da TV e ouço: “Deus nos ajudou e conseguimos vencer com a força do povo”, mais ou menos isso é o que traduzo para os mais fanáticos.
Os gritos lá fora anunciam que alguém proeminente chegou. Ligo a câmera fotográfica esperando Micarla, eis que surge Paulo Vagner, aquele fanfarrão da TV, gordinho. É, ele é o vereador mais votado do pleito e segundo ele mesmo “o vereador mais votado da história política de Natal”, com 14.444 votos.
Gritos ensurdecedores, dentro e fora dos estúdios da Ponta Negra. `Agora sim’! Micarla entra triunfante, sorridente e de verde, acompanhada de uma dúzia de assessores, seguranças e amigos. Rosalba Ciarlini chega junto com ela, assim como Paulinho Freire, o vice-prefeito, e os deputados, pai e filho, Robinson e Fábio Faria.
‘Micarla onde passa vai levando o povo”, é a música que toca lá fora. Dentro do estúdio é literalmente isso que acontece. Flashs, gritos, abraços, aperto de mão. Todos querem tocar na nova prefeita de Natal, aquela que derrotou, quase, todos os caciques que diziam que elegiam até ‘um poste’. Eu no canto da parede, espremido, tento bater, uma foto descente de ser publicada. Acho que consigo.
Com a chegada de Micarla aparece gente de todo lugar pelas ruas do Alecrim. Em pouco mais de meia hora, Micarla sai e vai de encontro com os seus eleitores. Lá fora o tumulto era grande, mas nada de violência, era dia de festa. Micarla não consegue andar, logo os eleitores e seus cabos eleitorais resolvem fazer o que fazem com grandes artistas, levanta a ‘borboleta’ e leva ela no braço.
Por um momento acho que é Copa do Mundo, o povo ergue o punho e grita. Em pensamentos distantes achei que era gol e Micarla de Sousa era a artilheira. E realmente foi. Do Alecrim todos, sem exceção, seguem para o Machadão e de lá em direção a Zona Norte de Natal, pela Bernando Vieira, aquela Avenida que o prefeito Carlos Eduardo gastou milhões e conseguiu deixar pior do que já era.
Pelas calçadas a população espera. Uma senhora levanta uma placa. Nela uma foto de Carlos Alberto, pai de Micarla, com os dizeres: ‘saudades’. Voto de geração em geração, penso. “Micarla realiza o sonho que o pai não conseguiu”, diz um homem de vinte e poucos anos levantando o copo que está na sua mão. Pelo trajeto pessoas humildes esperam pela nova prefeita. Salto do carro que estou para sentir o clima da população. Senti-lo foi muito bom. Pude ver a felicidade de pessoas e pessoas, das quais Micarla nem sabe que existem. Enquanto eu penso na importância daquela multidão que vem vindo, com bandeiras, faixas, adesivos e carros, uma senhora me pergunta: ‘você tem adesivo?’, respondo que não, mas arranco um ‘bottom’ do peito de um amigo e dou para a minha interlocutora, que diz amar Micarla e o pai dela.
Vou chegando ao viaduto da Urbana. Na passarela próxima, uma multidão de gente toma todos os metros quadrados. Lembro de um vídeo que assisti, recentemente, sobre a morte de Getúlio Vargas. O seu caixão passando pelas ruas e nas passarelas o povo jogando pétalas de rosas. Mas lembrei pelo triunfo do povo para com o político e pensei na relação de amor que ambos carregam em si. É admirável tal feito, bem como inexplicável. Penso ainda que poucos homens conseguiram arrastar tantos fãs como Getúlio. Faço alusão e penso se um dia Micarla conseguirá tal feito. Veremos.
É uma hora e trinta minutos da manhã. Chego ao largo da Urbana, antes de virar para a ponte de Igapó, e paro num posto de gasolina. A carreata-passeata ainda vem pela altura da Avenida Jaguarari. Há uma multidão e um grande congestionamento de carros. São tantos sons ligados que é impossível distinguir que música está tocando. Olho no relógio e concluo que está na hora de voltar para casa, pois às 6 da manhã tenho que ir trabalhar.
Deixo pelo caminho o bêbado que balança mais não cai, as lindas mulheres que dançam de verde até o chão e os boêmios que comemoram a vitória da pevista. Deixo as milhares de pessoas pelo caminho e sigo meu trajeto sempre com o olhar na janela.
Amanhece o dia e os jornais conclamam a vitória inconteste de Micarla Araújo de Sousa Weber, 38 anos, casada, Jornalista formada pela UFRN e herdeira política do ex-senador Carlos Alberto de Sousa (in memorian). Eleita por 193 mil e 195 pessoas, o que equivale a 50.84% do eleitorado da capital. Fecho o jornal e fico feliz por ter presenciado mais um fato histórico.
E isso ninguém me contou, eu vi.
Até mais.

FONTE: MEDIA ALTERNATIVA
AUTOR: Bruno Rebouças
http://mediaalternativa.wordpress.com/

ABAP prepara manifesto formal ao TCU

ABAP prepara manifesto formal ao TCU


Documento deve ser protocolado até o final dessa semana formalizando a entrada da entidade no processo em que o TCU audita a relação entre a publicidade do governo federal e suas agências de publicidade
Robert Galbraith, de Salvador


13/10/2008 - 17:03


Depois de passar os últimos cinco anos participando informalmente do processo em que o Tribunal de Contas da União analisa os contratos de prestação de serviços de agências publicitárias ao governo federal, a Associação Brasileira das Agências de Publicidade (ABAP) decidiu esta manhã, em sua reunião nacional que ocorre hoje em Salvador, que sua atuação a partir de agora será oficial.. A decisão tomada pelo presidente Dalton Pastore, junto com sua diretoria, é uma reação ao parecer do Ministério Público, assinado pelo procurador Júlio Marcelo de Oliveira, que desaprova os termos da revisão do Acórdão 2.062/2006 que estabelece o Conselho Executivo das Normas-Padrão como referencial para a publicidade estatal. O documento, já enviado ao ministro Marcos Vinicios Vilaça, encarregado do reexame do acórdão, também condena a prática da Bonificação de Volume.Dalton Pastore classifica o parecer do procurador como uma condenação à toda atividade publicitária. "É muito radical e vai contra os mais de 70 anos de história da publicidade mundial, pois praticamente proibe que as agências agenciem a compra de mídia e a contratação de terceiros, nos restringindo a ser bureaus de criação", critica Pastore, mais uma vez lamentando a falta de conhecimento de mercado do MP como a base do parecer que considera equivocado. "Em vez de identificar os culpados pelas irregularidades, o MP quer acabar com nossa atividade. Seria como por causa de um banco de sangue irregular fechar todos os demais", compara. Pastore, porém, não acredita que a ação do MP interfira no andamento do projeto de lei do deputado Eduardo Cardozo que propõe novas regras para concorrências públicas e relacionamento entre governo e agências.Desde 2003, todas as mais de 50 agências que atendem o governo federal foram auditadas pelo TCU, das quais cerca de 20 ainda devem explicações. Pastore deixa claro que a ABAP não se propõe a auxiliá-las em suas defesas. "Se descumpriram as normas do mercado, que se expliquem". Mas a partir do momento em que o MP toma uma posição contrária ao funcionamento do mercado, Pastore que a entidade deixa de apenas prestar esclarecimentos sobre esse funcionamento para fazer parte do processo como parte terceira; isto é, prestar esclarecimentos institucionais sobre como funciona o mercado publicitário. A primeira medida será o envio ao TCU de uma manisfestação formal da entidade, que até hoje vinha realizando esse procedimento informalmente. O texto deverá estar pronto até o final desta semana. A ABAP será representada pelo escritório Paulo Gomes de Oliveira Filho Adovogados e Associados.ABAP-Bahia comemora 30 anosAlém da formalilização da posição no processo que corre no TCU, a ABAP também aproveitou a reunião que ocorre no hotel Pestana, no Rio Vermelho, para homenagear todos os presidentes do capítulo baiano da ABAP que completa este ano 30 anos de atuação. Além de Fernando Carvalho, primeiro presidente da entidade na Bahia que tomou posse em 1978, também compareram à cerimônia José Jorge Randam, Alberto Miranda, Sidei Resende, Paulo Viana, Fernando Passo, Cláudio Carvalho e o atual mandatário Sidônio Palmeira. Os únicos ausentes foram Fernando Barros e Cleo Silva.

FONTE:MEIO E MENSAGEM

http://www.meioemensagem.com.br/novomm/br/Conteudo/?ABAP_prepara_manifesto_formal_ao_TCU