quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A 'vitória' de Micarla

A vitória de Micarla segundo o olhar do repórter

Outubro 7, 2008

Exerci minha cidadania pela manhã. Votei mais ou menos às dez horas e trinta e cinco minutos. Na minha sessão pouco movimento e tudo muito tranqüilo. Em um domingo ensolarado eu e algumas milhares de pessoas esperávamos a abertura das urnas.
As cores de Natal se resumiram no tão famoso verde, que não era o bacurau como é tradicional no RN, e o vermelho que continuava sendo a cor famosa dos bicudos. As urnas foram abertas às 17 horas. A ansiedade tomou conta de todos que ficaram na expectativa da apuração.
No dia anterior saíram algumas pesquisas que apontavam segundo turno. A pesquisa Start/Jornal de Hoje, foi exata. Cravou 50.9% dos votos para Micarla. Depois das 21 horas era o que se confirmaria.
A festa de Micarla começou em frente a TV Ponta Negra, de propriedade de tal candidata. Como a maioria das pessoas que conheço estavam lá, resolvi caminhar para o Alecrim, contando com a sorte de encontrar com a vencedora do pleito.
O clima na rua presidente Quaresma era de festa, mesmo com trinta por cento dos votos apurados. Carro de som e todo mundo de verde, menos eu. Animação e uma bandeira do PT. Isso mesmo do PT. Meia dúzia de, digamos, ‘micarlistas’ pulava sob a bandeira com a estrela e o número 13.
Alguns seguranças guardam a entrada da TV. Uma amiga me chama para entrar, pois dali em diante ninguém mais entra. Entrei e sentei. O telão ligado em um dos estúdios apontava 51% dos votos para Micarla de Sousa, mas a festa ainda não estava pronta. Faltava mais quarenta e nove por cento a serem apurados.
A cada minuto chega mais e mais gente. Uns entram na TV, outros, a maioria, ficam lá fora esperando o resultado. Em uma das salas, gritos. Os votos apurados chegam a oitenta por cento. A vantagem aumenta. A vitória está próxima. As pessoas vão soltando grito lá fora e a música em um dos carros aumenta, estronda. Dentro da TV mais comemoração, gritos e abraços. Chegamos a 96% dos votos apurados, a partir de agora mesmo que todos os votos restantes sejam de Fátima Bezerra, segunda colocada na apuração, Micarla vence no primeiro turno. E venceu.
“Coloca na Band”, grita um homem de óculos e cabelo grisalho. Rapidamente um dos funcionários liga na emissora citada. É Micarla falando. A prefeita de Natal. Lá fora o povo comemora mais e mais; bandeiras se agitam. Aquele som que estava alto consegue ser mais alto ainda. Na entrevista de Micarla como prefeita ninguém ouve nada. Me aproximo da TV e ouço: “Deus nos ajudou e conseguimos vencer com a força do povo”, mais ou menos isso é o que traduzo para os mais fanáticos.
Os gritos lá fora anunciam que alguém proeminente chegou. Ligo a câmera fotográfica esperando Micarla, eis que surge Paulo Vagner, aquele fanfarrão da TV, gordinho. É, ele é o vereador mais votado do pleito e segundo ele mesmo “o vereador mais votado da história política de Natal”, com 14.444 votos.
Gritos ensurdecedores, dentro e fora dos estúdios da Ponta Negra. `Agora sim’! Micarla entra triunfante, sorridente e de verde, acompanhada de uma dúzia de assessores, seguranças e amigos. Rosalba Ciarlini chega junto com ela, assim como Paulinho Freire, o vice-prefeito, e os deputados, pai e filho, Robinson e Fábio Faria.
‘Micarla onde passa vai levando o povo”, é a música que toca lá fora. Dentro do estúdio é literalmente isso que acontece. Flashs, gritos, abraços, aperto de mão. Todos querem tocar na nova prefeita de Natal, aquela que derrotou, quase, todos os caciques que diziam que elegiam até ‘um poste’. Eu no canto da parede, espremido, tento bater, uma foto descente de ser publicada. Acho que consigo.
Com a chegada de Micarla aparece gente de todo lugar pelas ruas do Alecrim. Em pouco mais de meia hora, Micarla sai e vai de encontro com os seus eleitores. Lá fora o tumulto era grande, mas nada de violência, era dia de festa. Micarla não consegue andar, logo os eleitores e seus cabos eleitorais resolvem fazer o que fazem com grandes artistas, levanta a ‘borboleta’ e leva ela no braço.
Por um momento acho que é Copa do Mundo, o povo ergue o punho e grita. Em pensamentos distantes achei que era gol e Micarla de Sousa era a artilheira. E realmente foi. Do Alecrim todos, sem exceção, seguem para o Machadão e de lá em direção a Zona Norte de Natal, pela Bernando Vieira, aquela Avenida que o prefeito Carlos Eduardo gastou milhões e conseguiu deixar pior do que já era.
Pelas calçadas a população espera. Uma senhora levanta uma placa. Nela uma foto de Carlos Alberto, pai de Micarla, com os dizeres: ‘saudades’. Voto de geração em geração, penso. “Micarla realiza o sonho que o pai não conseguiu”, diz um homem de vinte e poucos anos levantando o copo que está na sua mão. Pelo trajeto pessoas humildes esperam pela nova prefeita. Salto do carro que estou para sentir o clima da população. Senti-lo foi muito bom. Pude ver a felicidade de pessoas e pessoas, das quais Micarla nem sabe que existem. Enquanto eu penso na importância daquela multidão que vem vindo, com bandeiras, faixas, adesivos e carros, uma senhora me pergunta: ‘você tem adesivo?’, respondo que não, mas arranco um ‘bottom’ do peito de um amigo e dou para a minha interlocutora, que diz amar Micarla e o pai dela.
Vou chegando ao viaduto da Urbana. Na passarela próxima, uma multidão de gente toma todos os metros quadrados. Lembro de um vídeo que assisti, recentemente, sobre a morte de Getúlio Vargas. O seu caixão passando pelas ruas e nas passarelas o povo jogando pétalas de rosas. Mas lembrei pelo triunfo do povo para com o político e pensei na relação de amor que ambos carregam em si. É admirável tal feito, bem como inexplicável. Penso ainda que poucos homens conseguiram arrastar tantos fãs como Getúlio. Faço alusão e penso se um dia Micarla conseguirá tal feito. Veremos.
É uma hora e trinta minutos da manhã. Chego ao largo da Urbana, antes de virar para a ponte de Igapó, e paro num posto de gasolina. A carreata-passeata ainda vem pela altura da Avenida Jaguarari. Há uma multidão e um grande congestionamento de carros. São tantos sons ligados que é impossível distinguir que música está tocando. Olho no relógio e concluo que está na hora de voltar para casa, pois às 6 da manhã tenho que ir trabalhar.
Deixo pelo caminho o bêbado que balança mais não cai, as lindas mulheres que dançam de verde até o chão e os boêmios que comemoram a vitória da pevista. Deixo as milhares de pessoas pelo caminho e sigo meu trajeto sempre com o olhar na janela.
Amanhece o dia e os jornais conclamam a vitória inconteste de Micarla Araújo de Sousa Weber, 38 anos, casada, Jornalista formada pela UFRN e herdeira política do ex-senador Carlos Alberto de Sousa (in memorian). Eleita por 193 mil e 195 pessoas, o que equivale a 50.84% do eleitorado da capital. Fecho o jornal e fico feliz por ter presenciado mais um fato histórico.
E isso ninguém me contou, eu vi.
Até mais.

FONTE: MEDIA ALTERNATIVA
AUTOR: Bruno Rebouças
http://mediaalternativa.wordpress.com/

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